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A morte como ruptura do ser em uma visão filosófica

Depois de percorremos esse vasto caminho no universo humano, em toda sua estrutura de ser, nos deparamos com um ponto crucial, que também faz parte da vida do ser; “a morte”. Por muito tempo o homem busca explicação para esse fenômeno concreto; pois o questionamento sobre a morte é tão antigo quanto à existência humana no cosmos.

E a busca para desvendar esse mistério, levou o homem a criar diversas teorias, mitos e ceitas, isso pela necessidade de compreender, aceitar e confortá-lo nas perdas.

Por ser um fenômeno peculiar ao homem, gerou muitos questionamentos e surgiram várias teorias em diversas correntes de pensamento, acerca dessa fatal ruptura; cada uma dessas fontes teóricas procurou de certo modo, explicar e conscientizar o homem desse trágico destino e ao mesmo tempo, amenizar esse impacto pra o qual caminha todo ser vivo.

Tendo em vista as teorias apresentadas, observamos que para despertar nossa consciência sobre o fenômeno da morte, e necessário primeiro que tudo, uma consciência de si do tempo, pois é nele, ou seja, no tempo, que tudo isso ocorre.

A filosofia em sua linha ontológica procura justificar a morte afirmando que: por sermos seres contingentes finitos, participamos dessa aventura passageira que é a própria vida material, como também, todos os outros seres vivos; mas que essa realidade altera apenas nossa forma física, a essência retorna ao ser infinito, Deus. O pensador Morin afirma que: “é na morte que se encontra a maior ruptura entre o espírito humano e o mundo biológico. Na morte encontram-se, chocam-se, ligam-se o espírito, a consciência, a racionalidade e o mito” (2003, p.45).

Sendo assim, fica evidente que a morte ainda é um grande mistério, por ser um fenômeno que vai muito além da realidade material e adentra em um universo metafísico inatingível ainda pela racionalidade humana. Mas com tudo isso, uma coisa fica bem clara; somos seres extremamente complexos e somos parte de um universo natural do qual representamos apenas uma pequena partícula dessa imensidão que ele se apresenta. Nele participamos de uma real existência, que biologicamente obedece a uma seqüência de ordem natural: nasce, cresce, reproduz e morre.  A ultima é entendida na filosofia, não como um fim último, mas como um processo de transformação do estágio humano, onde a matéria é transformada em outras formas de vida orgânica e o espírito permanece como essência do próprio ser racional que somos

No entanto, podemos afirmar que a vida humana é uma grande aventura, que passa por vários estágios e segue seu percurso de contradições e complexidade. E que as várias faces apresentadas pelo homem, são frutos de complexidade, o que faz o mesmo caminhar na incerteza e na lucidez, aberto a possibilidade do devir como um ser concreto e abstrato, objetivo e subjetivo, atuante em um universo de contradições, um ser de buscas, composto por uma estrutura de sentimentos e razão.

O amor na complexidade humana

O amor no humano apresenta-se como fonte de toda criação, é um sentimento que conduz o ser a perpetuação da própria espécie; constitui-se de características básicas, que se manifesta no agir humano através do cuidar, da doação pelos outros, na promoção da vida. Por isso, é considerado como, “[...] a expressão superior da ética” . É uma necessidade vital de todo homem. Nessa vertente, afirma o escritor Mondin: “Antes de tudo, o amor constitui dimensão fundamental da natureza humana: é a mola de cada desejo e de cada ação” (2005, p.133)

Visto que vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista, materialista, onde o ódio e a desvalorização do ser são cada vez mais acentuados; em que os valores humanos são deturpados, por falta de solidariedade, amizade, compreensão; seria o amor peça chave e a única saída para esses problemas que fere o ser humano em sua dignidade?

Mas não podemos esquecer um dos fatores importantes que deve ser analisado e colocado em exercício em nossas ações amorosas, que é o nível de consciência racional acerca desse sentimento; pois o mesmo, apresenta-se com um alto nível de complexidade  que quando não bem direcionado ou racionalizado, pode ser catastrófico na vida de cada um; trazendo ao homem, atitudes alienantes, intolerantes, preconceituosas, depressivas, capaz de levá-lo ao ápice de loucura; vetando assim, o poder de criação, regeneração, abstração, resistência, religação, promoção da vida e harmonia que proporciona esse extraordinário sentimento chamado amor

No entanto, para que a expressão desse sentimento, seja realmente ética, faz mister ser direcionado racionalmente e aplicado no meio sócio-político de forma honesta e coerente com as necessidades que o mesmo apresenta. E assim, esse amor que é parte do próprio homem, torna-se essencial nas relações e ação ética do indivíduo;

Ética e Cidadania

Na era da comunicação, em que as sociedades vivem hoje, com um grande fluxo de informações e desenvolvimentos tecnológicos, que divide e exclui cada vez mais os grupos sociais, rompendo assim o espírito de solidariedade e coletividade; faz-se necessário uma nova leitura e estratégia social para vencer as armadilhas preparadas por esse sistema de morte, ou seja, um novo pensar para compreender a complexidade em que estamos inseridos; onde a desumanização é fator relevante nesse sistema de histeria coletiva.

O fato, é que com a expansão da industrialização, os interesses econômicos despertaram na população o espírito de competitividade, materialismo e individualismo; transformando assim, a dinâmica das relações sociais existentes, os valores éticos de solidariedade e responsabilidade, promovendo um distanciamento das ações de coletividade, favorecendo ao mesmo, uma ética individualista, ou seja, privada.

O crescimento do individualismo gerou uma liberdade e uma quebra de preconceito em relação a mulher, dando-lhes antes negado e emancipação em relação as limitações biológicas e a responsabilidade dos nossos atos em nós mesmo.

Como conseqüência do que foi citado acima, hoje há uma busca exagerada do ser humano por uma auto-realização a qualquer preço, que atropela e deturpa os princípios morais, ferindo a dignidade humana, gerando assim, uma necessidade individual urgente de amor.

Nessa perspectiva, o ser humano enfrenta grandes conflitos e questionamentos que proporciona no mesmo, uma divisão entre o universal e o particular, quando a situação consiste em oferecer duas escolhas que se contradizem entre si, em que a única opção será sacrificar o bem particular para obter o bem geral, ou vice- versa.

Frente a esse individualismo ético, que é fruto do capitalismo, em tempos de globalização; há uma urgente necessidade de uma ética voltada para religação que perpasse toda esfera da vida humana em sociedade e que seja capaz de resgatar os valores de solidariedade, respeito à dignidade humana, amor, amizade e fraternidade, para que seja regenerado ou restabelecido os desgastes que degradam a essência da vida humana.

A religação ética faz parte das normas e regras, que são impostas ao individuo pela sociedade, apesar do individuo às vezes apresentar resistência a esses princípios, que segundo dados, é responsável pela harmonia social, e como conseqüência realização pessoal de cada um..

A necessidade de religação parte do principio de que o outro é diferente de mim, mas faz parte de uma única humanidade e deve ser reconhecido como sujeito humano e consolidado essa compreensão através de uma ética de religação, que deve estar centrada em todos os âmbitos da vida em sociedade. 

Para realização da religação ética, faz-se mister uma auto-compreensão da realidade em nossa volta. Primeiro que tudo, devemos vencer nossas próprias limitações, reconhecer a necessidade de vencermos o individualismo, a incompreensão, o egocentrismo, as mentiras, as carências psíquicas, à pobreza moral e reconhecer o principio de inclusão.

A democracia, sistema criado, que deveria servir como ponte para realização de uma ética universal, comunitária; hoje, sufocada pelos avanços sociais no campo das tecnologias de ponta; acabou se desviando do seu objetivo principal, que é assegurar direitos e deveres iguais para todos, e tornou-se armas para alienação ideológica e manipulação social, concentrados nas mãos de uma minoria, gerando uma grande crise dos nossos tempos, como fonte de desigualdade, corrupção e egocentrismo.

No entanto, a democracia como resultado da complexidade social, é um sistema que deve desenvolver nos cidadãos o direito de expressar-se e manifestar os seus anseios e decisões, que contribuam para o desenvolvimento e construção de uma sociedade ética no seu percurso histórico, em seu processo sócio-politico-cultural.  

No entanto, elucidamos a necessidade de uma ética global, ou seja, uma ética universal que englobe todas as éticas particulares existentes, tendo como fundamento e objetivo principal, mesmo diante às diversidades e complexidade, a promoção e preservação da vida. Isso porque por mais particular e individual que seja a ação ética, ela está dentro de um todo que precisa ser compreendido, para que tanto a ação particular, como a coletiva, sejam realizadas. Exigindo de cada um, uma tomada de consciência sobre as reais necessidades em que se encontra a humanidade. E essa consciência, deve perpassar os limites particulares de cada realidade social e de cada ser, com vista a um bem universal, coletivo.

A afetividade como parte da complexidade humana

Segundo estudos das ciências biológicas, todo ser traz consigo desde a gestação em sua estrutura de formação genética, a afetividade. A mesma, o acompanha durante toda sua existência; pois é parte dele. No humano, ela se expressa de forma mais consciente, por ser um ser racional. A afetividade é extremamente importante em seu desenvolvimento como ser, em suas relações interpessoais e com o mundo em que vive. Segundo o escritor Edgar Morim, em sua obra, “A Humanidade da Humanidade”, afirma que: “A intensidade da afetividade humana, está ligada a infantilização e à juvenilização. O contato afetivo com os pais desaparece rapidamente entre outros mamíferos, mas dura toda vida entre os humanos, assim como a necessidade de amizade e de amor” (2003, p.121).

Portanto, a afetividade se manifesta na ação do homem, através de sentimentos expressos no comportamento do mesmo, na relação Eu - outro, através do amor, amizade, paixão, ódio inveja, etc. O mesmo, quando não administrado pela consciência racional, torna-se fonte de destruição, de dor, de desespero e alienação; impedindo assim, o processo da vida. Assim, percebemos que à afetividade é responsável pelo crescimento e desenvolvimento humano, na promoção, ou destruição de sua existência em todas as suas fases.

No entanto, percebemos que o homem é um ser potente e ao mesmo tempo frágil e dependente, é isso que o torna complexo, e a base dessa complexidade está justamente em sua estrutura racional-afetiva.

A aceleração do consumo e a condição Pòs-moderna

Com o desenvolvimento industrial e uma aceleração no meio de produção, o tempo tornou-se um fator primordial no mundo do consumo. Como conseqüência da aceleração do tempo de giro na produção, também houve uma aceleração paralela na troca e no consumo. Tudo isso possibilitaram a circulação de mercadorias no mercado a uma velocidade maior. Com esse desenvolvimento, destacamos dois fatores importantes:

A mobilização da moda em mercados de massa, que forneceu um meio de acelerar o ritmo do consumo não somente em termos de roupas, ornamentos de decoração, mas também uma ampla gama de estilo de vida e atividades de recreação ( hábitos de lazer e de esporte, estilo de música, vídeos, jogos infantis etc.)

A passagem do consumo de bens para o consumo de serviços – não apenas serviços pessoais, comerciais, educacionais e de saúde, como também diversão, de espetáculos, eventos e distração.

Dentre as inúmeras conseqüências dessa aceleração generalizada dos tempos de giro de capital, podemos sitiar também uma influencia na maneira de pensar, de sentir e de agir. Isso porque vivemos em uma sociedade do “descartável” como afirma, o escritor Alvin Toffler. Essa sociedade cria um monumental problema sobre o que fazer com o lixo. Esse sistema é capaz de atirar fora valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego as coisas, lugares, pessoas e modos adquiridos de agir e ser. Isso implica profundas mudanças na psicologia humana. Um dos elementos que contribui para isso é a propaganda. A mesma joga com nossas fragilidades mais intimas; apresentando-se como um mecanismo sádico e cruel, ela utiliza as nossas fragilidades, ansiedades, sentimentos agressivos, inconformismo e deficiências para vender produtos. A propaganda funciona atingindo o déficit do sujeito; causando seqüelas, ou seja, complexo de inferioridade. Nesse processo é feita uma destruição da realidade do individuo e de seu mundo, fazendo que esqueçamos nossos próprios valores. A mesma, sustentada pela indústria cria as ansiedades e é lógico, as soluções. Nesse processo a vida simples das pessoas, confronta-se com o glamour mostrado pela mídia, cria um desvalor e conseqüentemente uma necessidade de escapar de si mesmo; e isso faz com que os seres humanos continuem cada vez mais insatisfeitos consigo mesmo.

No entanto, nessa sociedade pós-moderna, busca-se a uniformidade do ser no pensar e no ter em um mundo do consumo e do descartável, onde a felicidade está no prazer, no entretenimento e na diversão. Tudo isso num conjunto é o que eles definem como o sucesso. Curiosamente aqueles que ousar ser autentico ou diferente, despertará a fúria dos iguais, (alienados).

Quem é o homem 

Ontologicamente, o homem foi definido como um ente, um ser dotado de racionalidade e potencialidades. Mas essa afirmativa torna-se incompleta e insuficiente para defini-lo, diante de toda gama de complexidade, do qual se apresenta o homem . Porque a ontologia adentra apenas na característica principal, que distingue a espécie humana dos demais seres. Nessa perspectiva escritores como Mondin, em sua obra, “O Homem Quem é Ele?” afirma: “O homem é um ser dotado de conhecimento: é o homo sapiens. No conhecer, de modo particular, ele se destaca dos outros seres que circundam e os supera imensamente. A vida humana se distingue das dos animais e dos outros seres viventes pelos níveis espirituais que atinge e pelas dimensões sociais que alcança: por isso. Pode-se falar em vida espiritual, vida intelectual, vida social e vida política, etc. (2005, p. 60; 63)”.

No entanto, percebemos que o ser homem é compreendido através da leitura do seu comportamento, ou seja, de sua ação ao relacionar-se com o cosmo, isso o distingue dos demais, e essas características o torna um ser singular.

Por viver em sociedade, o homem não é um ser isolado, independente. Nesse sentido, necessita dos demais para sua sobrevivência no cosmo, sendo assim é considerado um ser de relações; em seu relacionar-se com os demais, percebemos a presença de outros elementos subjetivos, afetivos, explícitos pelo mesmo, através do amor, ódio, amizade, paixão, inveja, alegria, tristeza; além suas necessidades físico-biológicas.

Além das características que torna o ser humano diferente dos demais animais, o homem também apresenta uma singularidade entre eles mesmos, através de sua personalidade, que se manifesta em sua forma de ser e de agir; isso faz com que ele se apresente como ser único e se diferencie uns dos outros.:

Nessa perspectiva, o ser humano apresenta sua identidade pessoal, como ser, como “Eu”, que acompanha toda vida do individuo , alterando apenas sua forma física, através dos sinais do tempo; isso porque somos seres contingentes em sua estrutura físico-química, mas na essência do ser não; através da essência, estamos ligados a infinitude que perpassa os tempos e transcende a matéria.

Partindo desse pressuposto, percebemos a unidade e multiplicidade do ser, em suas várias dimensões; isso nos mostra que o ser humano é repleto de mistérios e complexidade, jamais pode ser visto em apenas uma vertente; o mesmo deve ser analisado, segundo critérios não apenas científicos, mas também em uma dimensão metafísica, para não cairmos em um materialismo exagerado; mesmo porque, o homem é um ser que está sempre em construção, ou seja, está sempre no devir como afirma Heráclito, e assim, não pode ser visto apenas como matéria palpável e estável.

No entanto, fica evidente que o homem ainda é um universo desconhecido; apesar de muitos anos de pesquisa nesse campo, percebemos que ainda há uma infinidade de mistérios a ser desvendados, e isso faz do homem um ser extremamente complexo; sua complexidade apresenta-se tanto em sua estrutura de ser físico-psiquico, como também, nas relações de autonomia e dependência de todo meio em que ele habita e em suas ações sócio-política-cultural.

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